Escravos da cria

 

 

cria

“As correntes da escravidão só prendem as mãos. É a mente que faz livre o escravo”

Franz Grillparzer

Sou de uma geração que quando criança fazia tudo em casa: lavava, passava, arrumava casa, cuidava dos irmãos mais novos e ainda tinha que correr para atender meus pais sempre que solicitada para fazer algo. Tinha quer ir correndo para não deixá-los esperando.

Devia obediência cega e ainda o medo de fazer algo errado, pois a repreensão era pesada.
Quando eles estavam falando ficava calada só ouvindo, diálogo nem pensar. Eles mandavam, e mesmo que não concordasse obedecia. Essa era a lei.

Tinha horário pra chegar em casa e também ir à missa uma vez por semana. Só depois ia paquerar na praça.

Namoro tinha que ser na porta de casa. Isso aconteceu não só comigo, mas com quase todas da minha geração.

Não querendo dar aos nossos filhos a mesma educação repressora que tivemos, até porque as coisas estavam mudando e precisávamos acompanhar. Não dava mais para ficar numa relação de general. Eu mando e você obedece sem nem saber o porquê. Só que abrimos espaços demais e foi aí que nos perdemos. Queríamos dar tudo aos nossos filhos, conversar de igual pra igual. Ficamos muito próximos deles, o que por um lado foi uma coisa boa; só que escutamos demais e confundimos amizade com autoridade, fomos compreensivos além da conta, complacentes, esquecemos de impor limites e perdemos o controle da situação.

Tornamo-nos escravos dos filhos. Hoje eles sequer querem levantar do sofá para fazer as refeições na mesa, pegar água, arrumar o quarto e tantas outras coisas. O que é pior, estamos permitindo que eles assumam o comando da casa que nós sustentamos. Gritam quando querem algo e não sabem esperar. Acham-se donos da situação e querem ditar as regras, sem contar nos que são agressivos quando suas vontades não são satisfeitas. Nós pais, somos responsáveis por ter permitido essa situação.

A ânsia de fazer diferente foi tamanha que exageramos no excesso de proteção, cuidado e satisfação das vontades dos filhos.

Os colocamos no centro das atenções e estamos pagando caro por isso. Também de nada vai adiantar ficar se culpando do que já foi feito, até porque fizemos porque achávamos que era o melhor a ser feito, e era o que sabíamos fazer.
Mas sempre há tempo para recomeçar. Precisamos reparar o erro e pegar o caminho do meio exercendo nossa autoridade com firmeza, sem perder a serenidade. É uma jornada árdua e requer coragem e determinação, mas precisamos fazer isso para que possamos recuperar a autoridade em nossas casas.

Está em nossas mãos acabarmos com esse tipo de escravidão e mostrarmos aos nossos filhos que os direitos deles terminam quando começam os nossos. No fundo é isso que eles estão pedindo, gritando e implorando que a gente faça e, não estamos conseguindo entender. Que assumamos nosso papel de pai e mãe, exercendo nossa autoridade e poder para que eles se sintam seguros, importantes e amados. Assim tornar-se-ão pessoas confiantes íntegras e aprenderão a respeitar o próximo.

Cuidar dos filhos sim, porém nunca se “escravizar”, nunca permitir que seja quem for se tornar o número um na nossa vida.

03/o9/2015

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