Virada

“Viver amanhã é muito tarde. Viva hoje”

 

Dia 30 de dezembro de 2015. Tinha acabado de chegar na Praia do Forte para passar o réveillon. Não estava só, éramos nove, todos da família.

Deixamos as malas na pousada e saímos para almoçar quando me dei conta de que não tinha visto na minha bolsa o envelope amarelo onde tinha colocado todo o dinheiro da viagem. Levei um tremendo susto, na mesma hora a cabeça ardeu de dor.

Comentei na mesa do restaurante o que tinha acontecido, foi quando minha sobrinha falou que viu um envelope no chão ao lado do carro e pediu para alguém pegar. Na euforia da chegada, a gente parou para tirar foto e ninguém ouviu o alerta.

Na mesma hora saímos do restaurante, e fomos até o carro que tinha ficado no estacionamento da pousada. Fomos por desencargo, mas tínhamos certeza que não iríamos encontrar, era uma rua muito movimentada. Dito e feito, não encontramos. Entrei em desespero tinha levado todo dinheiro disponível. Na hora, de cabeça quente falei: acabou minha viagem.

Voltamos ao restaurante e lá já não mais me cabia, perdi a vontade de comer e só queria ficar quietinha com minha angústia.

De volta para pousada deitei, mas, minha mente estava acelerada demais para dormir. Depois de um tempo respirei fundo e pensei: estamos todos com saúde, fizemos uma ótima viagem e não posso permitir que esse fato estrague nosso réveillon. Sem contar que tenho uma pessoa maravilhosa ao meu lado que tem o dom de me acalmar em qualquer situação.

Olhei para ele, que estava ao meu lado, e percebi o quanto eu tinha para agradecer. Rapidamente passou toda cena do meu desespero e me senti uma boba, afinal de contas eu sabia que ia ter como pagar minhas despesas, para isso é que serve cartão de crédito.

Fiquei imaginando pessoas que perdem tudo numa catástrofe, como foi a de Mariana, que vê o esforço de uma vida inteira sendo levado lama abaixo. Sem contar às pessoas que perderam entes queridos.

Mais uma vez percebi o quanto tinha a agradecer por estar bem e com as pessoas que amo.

Foi uma viagem maravilhosa principalmente por não ter me permitido que esse pequeno incidente estragasse o melhor da vida. O momento presente.

Paradoxo

“Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída
Como é, por exemplo, que dá pra entender
A gente mal nasce e começa a morrer”
Vinicius de Morais

 

A letra dessa música mostra como nossa vida é cheia de paradoxos. Há situações que é melhor nem tentar entender, pois faz parte dos mistérios da vida e somos seres humanos em evolução, distante de alcançarmos esse discernimento. Então, melhor vivermos a beleza da vida tirando aprendizado de cada situação. Sou muito assim:

Capaz de superar grandes obstáculos e me desesperar com bobagens.

Rir das dificuldades e me derramar em lágrimas com um abraço afetuoso de um filho.

Brigar com o mundo para defender um filho e enlouquecer com ele porque não fez a tarefa de casa.

Defender, e chorar por um amigo, e também ser capaz de magoar e feri-lo.

Sou tranqüila, serena a ponto de acalmar uma fera, mas também um furacão capaz de provocar grandes abalos.

Em meio a todos esses contrastes, vou me construindo e desconstruindo a cada dia e tornando o que sou. Assim aprendi a me mostrar e me esconder da vida.

 

Partida

 

“Aquele que amamos nunca morrem, apenas
Partem antes de nós”.
Amado Nervo

Desde a madrugada do dia 28/11/2016 o mundo parou para acompanhar a tragédia com a equipe de futebol Chapecoense e demais passageiros que estavam a bordo. Tragédias coletivas chocam e abalam a todos, sem contar na dor e sofrimentos dos familiares e amigos. No caso da tragédia sofrida pela equipe do time, a dor causada foi não só ao povo brasileiro, apaixonado por futebol, mas ao mundo do futebol. Times de todo o mundo enviaram mensagens de solidariedade para os familiares e para o povo chapecoense e ajuda para reerguer o time e trazer de volta a alegria desse povo.

Foi emocionante a homenagem que a Colômbia preparou para as vítimas da tragédia que teve início no exato momento em que teria começado a partida de futebol.

O estádio de Medellín lotado, como se fosse a final do campeonato. As pessoas muito comovidas seguravam faixas com dizeres de apoio, carinho e solidariedade; seguravam velas acesas para iluminar a passagem de cada um dos que se foi. De uma emoção contagiante.

Fiquei pensando na trajetória desses meninos que desde muito cedo carregam o sonho de ser um jogador de futebol reconhecido, e ter a fama e o glamour que esse meio proporciona para quem consegue vencer. Em nome desse sonho ainda no começo da adolescência, tem início uma árdua maratona de treinos e testes para os times. Deste imenso universo somente alguns sonhadores conseguem ser selecionados para fazer parte de um time. É muito empenho, dedicação, desgaste, sofrimento e na maioria das vezes o afastamento da família.

No caso desses jogadores da Chapecoense, começaram em um time da série D, de uma pequena cidade, o qual pouco tempo atrás pouco se falava. Mas lá estavam eles, treinando arduamente durante para trazer a alegria do torcedor no final de semana e fazer seu time subir de série, como aconteceu.

Um time rebaixado, que veio ano após ano crescendo e mostrando ao mundo um futebol de garra, determinação e vontade de jogar, conseguindo chegar ao que todo time almeja: a primeira divisão; um time onde todas as estrelas tinham o mesmo valor e brilho; onde todos eram considerados imprescindíveis para chegar à vitória, a união em nome de um único objetivo: vencer. Esse foi o segredo desse time.

Não posso deixar de falar, claro, no mérito da comissão técnica que acreditou bravamente no potencial dos seus jogadores e soube tirar de cada um o seu melhor, conduzindo com determinação e confiança sua equipe.

Chegado à hora desses meninos realizarem um sonho de jogar a primeira final de um campeonato Sul-americano. Felizes e realizados, como mostrou a última filmagem feita dentro do avião, por poderem viver esse momento de glória e sentir seus sonhos decolando. Meninos com um futuro promissor, pois tinha mostrado ao mundo do futebol o que sabiam fazer com competência, habilidade, ética e acima de tudo trabalho em equipe.

Eis que por ironia do destino é levantado para eles o cartão finalizando o que iria começar. Não o cartão amarelo, que é uma punição mais branda, não o cartão vermelho, que tira temporariamente o jogador da partida, mas o cartão que não permite o jogo começar. Essa interrupção deixou muita dor, saudade e apagou o brilho no olhar, o sorriso no rosto de cada família, de cada cidadão chapecoense e de cada torcedor. Torcedor esse que sofreu a cada derrota, brigou, mas continuou incentivando, acreditando e fazendo a festa.

A luz apagou. A festa acabou. O sonho morreu.

Porque tinha que ser assim? Não sabemos. Em meio à dor fica difícil encontrar uma explicação. Podemos até pensar que eles foram fazer a festa no outro plano e que a missão deles aqui se cumpriu, mas ao certo não sabemos.

Acredito que tudo tem um propósito de ser e que a vida não acabou. Um dia todos irão se encontrar e entender o porquê a partida acabou antes mesmo de começar.