Reinvente-se

“Pessoas coerentes e previsíveis provocam uma admiração relativa e muito sono: gosto das que nos surpreendem e deslumbram, e quanto mais diferente de nós, melhor.”
Martha Medeiros

Lucidez demais deixa o ser humano engessado, sem criatividade, sem brilho no olhar, sem vida mesmo. É como diz Martha Medeiros: dá muito sono. Gosto de pessoas que estão sempre buscando algo novo, que acredita no potencial que tem e que vai atrás dos seus sonhos, não importa o quão difícil pareça ser.

Sair da rotina de vez em quando viver novas experiências, se permitir ser criança de vez em quando dá um colorido especial à vida. Não é porque nos tornamos adultos que temos que ser pessoas sérias o tempo todo, estar sempre preocupado ou correndo de um lugar para o outro para dá conta de tudo.

Chutar o pau da barraca de vez em quando faz muito bem. Realizar suas fantasias, não deixar para depois, pois este, nunca chega. Nem sempre as coisas dão certo na primeira ou segunda vez. E daí? Continue tentando. Que graça teria se tudo desse sempre certo? Cairíamos no marasmo, pois tudo seria previsível demais. A beleza da vida está em não saber como será o amanhã.

Faça valer a pena cada dia, cada minuto, cada segundo da sua vida. Feche os olhos respire fundo e agradeça por ter a oportunidade de poder recomeçar, de fazer diferente, de trilhar novos caminhos, de perdoar, de renovar a esperança com o nascer de um novo dia.
Sorria, chore, brigue, cante, dance, corra, recomece, tente quantas vezes for necessário só não desista de viver. A vida é curta demais para ser desperdiçada.

Cântico Negro

Quero compartilhar esse poema lindíssimo do compositor José Régio. Ouvi pela primeira vez na abertura de um show de Maria Betânia. Quando ela entrou no palco declamando com aquele vozeirão as lágrimas vieram aos olhos. Momento inesquecível. Fico arrepiada só de lembrar.

Foi daí que nasceu o nome do meu blog Rasgando o Ventre. Esse poema retratava muito do que estava vivendo no momento. Senti-me fortalecida ao ouvi e ao mesmo tempo era como se estivesse rasgando o ventre de minha mãe e renascendo pra mim, renascendo pra vida, renascendo pro mundo, sem medo e sem vergonha de segui meu próprio caminho.

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!”

O Desperdício da Vida

indice

“Cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no
amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade”.

Carlos Drummond de Andrade

Quem nunca ficou dividido entre escutar a voz da razão ou do coração? Quando escutar a voz da razão sufocando a do coração você poderá ser uma pessoa bem sucedida profissionalmente, ter um emprego estável, acumular bens materiais, ser reconhecido pela sociedade e uma referência de como vencer na vida. Mas possivelmente não será uma pessoa feliz.

Sufocar a voz do coração é sufocar a alegria de viver, de ousar, de arriscar. É perder a chance de se permitir fazer a diferença em um mundo onde as pessoas vivem entediadas porque não gostam do que fazem e não têm coragem para fazer o que gostam.

Sufocar a voz do coração é perder a capacidade de amar sem reservas, de se entregar à vida sem medo de sofrer, sem medo de errar, pois só erra quem se arriscar, quem não tem medo de ser criticado, de ser taxado de ridículo.

Sufocar a voz do coração é se esconder por traz de uma máscara para agradar, para corresponder às expectativas de uma sociedade desajustada e desequilibrada, é abrir mão de ser você mesmo, da sua essência, do seu verdadeiro eu.

Sufocar a voz do coração é acordar infeliz todos os dias e adormecer exausto pelo tédio. É não ter energia para viver o novo, para realizar sonhos, é se sentir oprimido sem opressor.

Sufocar a voz do coração é perder a razão de viver e viver sem razão. É ser aceito pelas pessoas e rejeitado por si mesmo. É não conseguir enxergar a esperança que se renova a cada dia. É não se permitir renascer a cada amanhecer.

Sufocar a voz do coração é não partilhar momentos especiais, é não se encantar com a pureza de uma criança, é não ver beleza no pôr do sol, no canto dos pássaros e nem mesmo desabrochar com a primavera.

Sufocar a voz do coração é não abraçar a vida com suas dores, seus amores, com suas derrotas e vitórias seus encantos e desencantos. É se fechar para a vida, é morrer antes mesmo da morte chegar.

É desperdiçar a vida.